Reparação, livro/ Desejo e Reparação, filme

Atonement

atonement

A person is, among all else, a material thing, easily torn and not easily mended.

O livro:

Dividido em três partes, Reparação, escrito por Ian McEwan, está na lista da revista TIME dos 100 melhores livros escritos em língua inglesa desde 1923, e não por acaso. O escritor britânico brinca com a narrativa de forma surpreendente, transformando uma simples e clichê história de amor em algo a mais.

Basicamente, e muito por cima, o livro conta a história de um jovem casal apaixonado (Robbie e Cecília) que são impossibilitados de ficarem juntos por conta de um mal entendido, e o desenrolar da história se realiza mostrando diferentes perspectivas do acontecimento que causou a complicação na narrativa e que culminou no clímax da história. Essas visões vão se entrelaçando até que chegamos ao final do livro, com a ultima, e de certa forma, única narradora, esclarecendo o que de fato aconteceu naquele verão de 1935, em uma casa de campo inglesa.

A primeira parte do livro é narrada por diversos personagens, de acordo com a perspectiva de cada um. Assim, uma mesma cena (como a cena poço) é descrita de três maneiras distintas, respectivamente pelo olhar de Cecília, Briony e Robbie. O autor faz isso sem deixar a narrativa repetitiva, e é nesse ponto que o livro se torna grandioso. Ian McEwan consegue mostrar que a percepção da realidade é exclusivamente moldada pelo ser por traz desse olhar, portanto uma mesma narrativa descrita por personagens diferentes pode sim transmitir essas diferentes percepções, deixando por conta do leitor a responsabilidade de juntar todos os fios condutores de narração, ao longo da mesma, para chegar a uma construção de uma possível realidade na história. Porém, mediante ao fato de que a perspectiva de Cecília e Robbie na verdade é uma criação da própria Briony, como é revelado no final do livro, temos também que o narrador é ao mesmo tempo, onisciente, observador e personagem – o que descredibiliza Briony, after all. (mind blown, huh?!)

A primeira parte de Reparação, que em minha opinião dá ênfase ao personagem de Cecília, é muito bem construída com complicação e clímax fortes e impactantes, que engatam a leitura até o final, e que inclusive tornam a segunda parte de livro (que é mais cansativa), interessante. O desfecho tão surpreendente quanto, acontece só ao final da terceira parte, com a revelação de Briony sobre o que acontecera nas vidas de Cecília e Robie. A segunda parte, mostra Robbie lutando na II Guerra Mundial, é a parte mais extensa do livro, muito bem detalhada (o que não me agradou, mas que tenho certeza que agradaria àqueles que se interessam por narrativas bélicas).

O feeling do livro lembra muito Jane Austen, mas apresenta certas características em sua narrativa que distancia a escrita de McEwan de sua conterrânea.

O Filme:

Desejo e Reparação, dirigido por Joe Wright, é uma adaptação do livro de McEwan, que tem no elenco Keira Knightley, James McAvoy e Saoirse Rona, entre outros. Teve diversas indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro em 2008, sendo vencedor nas categorias Melhor Trilha Sonora (OSCAR e Globo de Ouro) e Melhor filme dramático (Globo de Ouro) – nada mal! O grande destaque, como pode ser observado, fica por conta de Dario Marianelli – o responsável pela trilha sonora.

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De forma geral, o roteiro segue a risca o seu homônimo literário, exceto pelo grande corte da segunda parte do livro; temos pouquíssimas cenas da Guerra, o que tornam narrativa do filme mais suave, e que contribui para gostarmos mais de Briony. Digo isso porque essa personagem é detestável no livro, e grande parte desse descontentamento por ela é causado pelas longas descrições do sofrimento de Robbie no campo de batalha, do qual ela tem parcial responsabilidade. Ainda assim, o final não é comercial, e Christopher Hampton (o roteirista) consegue transpassar bem, ainda que não perfeitamente, as nuances da escrita de McEwan para o script de Desejo e Reparação.

O figurino, a fotografia do filme, o ritmo; estão todos de acordo com o que é proposto. Mas o grande destaque, como mencionado, fica a cargo da trilha sonora. A maneira como Marianelli brinca com a sonoridade dos objetos, demarcando através deles os diferentes tempos da narrativa, e seus respectivos espaços, é muito bem executada. A sensação de uma pressa agoniante (para que a complicação do enredo se resolva com o desfecho) também é causada pelo som, sempre reverberando o tic tac do relógio, como se o tempo de Robbie e Cecília estivesse acabando, profetizando, com o constante feeling de agonia, o final trágico.501-Atonement-quotes

*****

Tomando em conta essas breves considerações a respeito das obras, recomendo tanto o livro quanto o filme. Mas se optar por escolher entre um deles, a obra de McEwan com certeza é mais imperdível. Entretanto, indico fortemente a apreciação dos dois, pois são canais de comunicação diferentes que, apesar de abordarem uma narrativa semelhante, apresentam peculiaridades de seus respectivos meios que os tornam únicos.

trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=FWPZDi723Eo

Até a próxima!


Kel Ribeiro

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